Acredito que a causadora desse sentimento tão glorioso seja a tal da endorfina. Esse hormônio é segregado pelo hipotálamo, de propriedade analgésica, geradora da sensação de relaxamento e bem estar no corpo. Depois do esporte meu corpo fica cheio dele. O seu também, caso você faça esporte ou coma chocolate. É, só que só o chocolate não o/a deixa em forma. Este lhe dá forma.
Com a mochila pronta deixo a minha casa caminhando. Os 18 graus lá fora refrescam minhas canelas peladas e tentam se infiltrar pelas frestas da minha jaqueta de chuva. Sim, chuva! Em Aachen, na Alemanha, temos o prazer de ter chuva por cerca de 196 dias por ano. São seis meses no ano. A tal da estatística diz isso. Ela também diz que Aachen fica cima da média da Alemanha (178 dias). Sendo assim, não posso esperar pelo sol. Pé na estrada! Até chegar na piscina, teve casamento de espanhol. Para quem preferir, casamento de viúva!
Aqui na Alemanha não existem clubes como no Brasil. As estruturas são bem diferentes. Tratando-se de piscinas, existem as piscinas públicas! Estas, em geral, são cobertas, isoladas, aquecidas, por causa dos longos invernos. Mas também existem as piscinas livres ou abertas (Freibad). Estas ficam abertas entre Abril e Setembro. E é nessa última que produzo meu coquetel de endorfina nesses meses.
Os pés sobre a baliza. A piscina à minha frente. Os óculos de natação vermelho apertando os olhos e incomodando o nariz. A pele sentindo o vento leve e fresco. Sem comentar a chuva. Posso dizer que, assim, sinto-me bem vivo. Com frio, mas vivinho. Os músculos gritam por movimento! A mente ordena: jogue-se!
Todo o corpo se tensiona. O movimento é harmônico e controlado. Nesse momento, os mais inusitados pensamentos invadem minha mente. Entre deixar os pés da baliza e tocar a água com a ponta dos dedos das mãos, o passado me invade. Os anos de treinos na piscina em Londrina e depois em Florianópolis, o prazer do esporte, os aprendizados para a vida. Do mesmo modo rasante que esses pensamentos me invadem, deixam-me. A água fria! Ah, o choque e depois a adrenalina!
Uma hora de braçadas. Sofridas, prazerosas, precisas, cansadas. Dois quilômetros e meio quase sem pensamentos. Só a meta em foco. Todo o resto é secundário, "aguentável", suportável. Como na vida, quando, em certas situações, algo parece me segurar. Como a água segurando meu corpo ao nadar, retardando-me. Mas como na vida, a disciplina e a certeza de que tudo vai ser como tiver que ser empurram-me para frente. E a água, que me prendia, agora me suporta. Suporte para as braçadas e para as pernadas. Quanto mais forte a resistência, mais forte o suporte. E no fim das contas, mais endorfina!
| Indo para casa cheio de endorfina e relaxamento para momentos relaxados com a família |